Itapuã nos primórdios do período colonial

Fernando

Salvador, BA

Da aldeia de pesca que aparece nas cartas cartográficas, desde o século XVII grafado como “Tapoan”, até ao bairro na contemporaneidade, a trajetória desse lugar conhecido internacionalmente como a representação da imagem do paraíso idílico chamado de Itapuã nos remete a uma das paisagens naturais que representam, junto com sua gente, o símbolo de um rico tesouro da baianidade.
É na abrangência da atividade humana que a associação do nome do bairro à pedra está na etimologia indígena do Tupi significando “pedra de ponta”. Entretanto, no gosto da gente do local e no trato da justificativa para explicar a sua maneira de ler o mundo, a denominação que predomina é “pedra que ronca”. Caetano Veloso, na letra do disco Bicho (1977), conseguiu traduzir sucintamente a mistura contida nas origens da nomenclatura do bairro: “A força vem desta pedra que canta Itapuã. Fala Tupi, fala Iorubá”.
A antiga aldeia dos tupis, posteriormente recheada com a presença africana, demonstra o processo de formação do “povo de Itapuã”, permeado de traços da História do Brasil através dos séculos. Essa memória ancestral dos relatos da História oral associada aos registros da historiografia aponta a importância dos primeiros no desvelamento dos fatos contidos e escamoteados nos registros oficiais.
Se os traços da cultura do povo de Itapuã são nitidamente mesclados por tons fortes dos indígenas e africanos, a historiografia corrobora para ampliação do leque de etnias deste caldo cultural local, a partir da inserção do colonizador português. Num apanhado en passant dos escritos historiográficos, nota-se a presença de Itapuã nos registos dos acontecimentos históricos. Decerto, antes da chegada do colonizador europeu às terras de Itapuã, habitava-se originalmente a tribo da etnia Tupi que marcou sua presença na origem do nome do bairro e indicava a relação com o mar. Porém, a primazia do encontro entre povos, marcado por conflitos, será do português com o índio..
A implantação do Governo Geral, com a vinda de Tomé de Souza respaldado nas determinações expressas no Regimento de Almerim , editado por D. João III, em 1548, tratando da empreitada de fundar uma cidade fortificada, "uma fortaleza e povoação grande e forte", em um lugar conveniente destinada a ser a Cabeça do Brasil para dali "dar favor e ajuda às outras povoações", configura maior presença lusitana.
Entre as prerrogativas do governador geral, estava a doação de terras, e não foram poucas as concessões efetuadas, dentre as quais incluía a área que engloba Itapuã. Dos nomes que receberam tal benefício de Tomé de Souza, estava o seu almoxarife Garcia d’Ávila, agraciado com um lote situado entre “13 a 14 léguas ao norte de Salvador” e “separadas da Ponta do Padrão, atual Forte de Santo Antônio da Barra e das terras do Rio Vermelho”, segundo Moniz Bandeira (2000). Em geral, o nome da família d´Ávila pouco é relacionado à História de Itapuã. No entanto, após os indígenas e antes da presença africana, foi o colonizador que fincou raízes naquele litoral.
O historiador Cid Teixeira afirma que a sesmaria de Garcia d’Ávila foi ampliada por doações na região através de atos administrativos de outros governadores durante o século XVI (Teixeira, 1978ª). Prossegue Teixeira (1978ª), a primeira doação do governador geral para Garcia d’Ávila, futuro senhor da Casa da Torre, estão as terras que correspondem aproximadamente ao Montserrat, localizada na região da península de Itapagipe, atual bairro da Ribeira, em Salvador. Entretanto, percebendo não ser promissora a terra de Itapagipe, permutou-a com a ordem religiosa dos beneditinos a propriedade da praia de São Francisco, em Itapuã. No mesmo local, conforme documentação do século XVI, há informações sobre a capela erguida em devoção a São Francisco no alto de uma colina, área correspondendo hoje a que faz parte do cemitério local com o mesmo nome do templo seiscentista .
Segundo o historiador Cid Teixeira, de acordo com o foral de 1549, o marco que estabelecia o limite da Fazenda São Francisco e as terras de uso comunitário pertencente ao Senado da Câmara de Salvador que era onde está localizada atualmente a estátua da sereia de Itapuã.
Nessa acepção, a vila de pescadores nasceu em terras públicas pertencentes à Câmara Municipal e o que corresponde à área onde atualmente estão as residências pertencentes à Aeronáutica, o cemitério municipal de Itapuã e as imediações da praia de Placaford integraram a propriedade da família d’Ávila.
Garcia d’Ávila passou a residir na Fazenda São Francisco criando gado e, a partir de Itapuã em direção ao litoral norte, amealhou grandes faixas de terras tornando-se aos vinte e quatro anos de idade um dos homens ricos e poderosos da capitania da Bahia. A primazia da atividade bovina coube à Casa da Torre de d’Ávila conforme ressalta (BANDEIRA, 2000, p. 95): “E seu rebanho de gado já crescera tanto que, [...] Garcia d’Ávila, requereu mais duas léguas, em sesmaria nos campos de Itapuã”.
No governo de Mem de Sá as doações de terras prosseguiram e as possessões do senhor da Casa da Torre estendiam-se de Itapuã para além de Tatuapara (hoje corresponde à localidade de Praia do Forte, no município de Mata de São João, no litoral norte da Bahia) até o rio Real (atualmente serve como divisa entre os Estados da Bahia e Sergipe). Erguida sobre uma elevação nas imediações da atual Praia do Forte, a Casa da Torre originariamente denominada como Torre Singela de São Pedro e Rates, ficou mais conhecida como Castelo de Garcia d’Ávila, considerado como o único “castelo” rural da América Portuguesa. Foi o núcleo inicial do maior morgado do Nordeste e, quiçá, do Brasil entre o século XVI-XVIII, expandido por gerações até a extinção do regime de morgadio em 1832.
As extensas terras deste latifúndio familiar não eram contíguas, estavam intercaladas com propriedades das ordens religiosas, principalmente as da Companhia de Jesus, juntada a da coroa portuguesa, outros proprietários particulares e povoadas por seis grandes aldeias dos Tupinambás, etnia hostil aos colonizadores. Em 1555, algumas destas tribos atacaram as pastagens de gado de Garcia d’Ávila em Itapuã, conforme Bandeira (2000, p.96), “matando três vaqueiros e chegaram até as cercanias do Rio Vermelho”.
Bandeira assinala ainda, Garcia d’Ávila arregimentou forças contra as tribos que atacaram suas terras “Conseguiu desbaratá-las e, em seguida abalou com 160 homens a pé para Itapoã , mas os índios que lá habitavam não participaram do levante e não resistiram” (BANDEIRA, 2000, p. 96). Entretanto, algumas passagens, com requintes de crueldade, marcam a relação dos herdeiros da Casa da Torre em relação aos indígenas, segundo Mott (2010, p.66), “Francisco Dias d’Ávila, em 1676, mandou degolar, de uma só vez, 400 tapuias, aprisionando as mulheres e crianças”.

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